Autoria: Danilo Tupinikim.
Genebra, 17 de julho de 2025.

 

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Participar do evento “Fortalecendo Vozes 2SLGBTQIA+ na ONU”, realizado no Palais des Nations em 15 de julho, foi uma experiência profundamente significativa. Este espaço representou mais do que uma mesa de debates — foi um território simbólico de resistência, de acolhimento e, sobretudo, de presença. Estivemos ali para afirmar que nossas vidas indígenas e 2SLGBTQIA+ importam e que precisamos ser ouvidos nas decisões globais que moldam o futuro de nossos corpos e territórios.

 

Minha atuação nasce da interseção entre o movimento indígena e o movimento 2SLGBTQIA+, especialmente no contexto brasileiro, onde vivemos uma grave situação de violências e perseguição às lideranças indígenas, incluindo indígenas 2SLGBTQIA+. A realidade que vivenciamos, especialmente no Brasil, nos exige urgência: lideramos o ranking de países que mais mata pessoas 2SLGBTQIA+ no mundo, e essa violência atravessa também os povos indígenas, atingindo de forma brutal jovens, lideranças e corpos dissidentes.

 

 

Foto/Divulgação: Danilo Tupinikim.

 

A partir dessa intersecção, atuo com a convicção de que as identidades indígenas 2SLGBTQIA+ não apenas existem — elas resistem. Em muitas comunidades, a violência de gênero e a marginalização de pessoas trans, lésbicas, gays e bissexuais indígenas ainda são invisibilizadas, o que intensifica os índices de depressão, suicídio e exclusão social. A identidade de gênero e a sexualidade, quando vividas a partir da cosmovisão indígena, são também formas de defender os territórios ancestrais, de afirmar uma existência que é espiritual, política e coletiva.

 

Por isso, internacionalizar essas pautas é uma estratégia de sobrevivência, mas também de construção política.

 

Levar essas questões para a ONU é um ato de denúncia e de proposição. É disputar os sentidos da universalidade dos direitos humanos, incluindo as vozes que historicamente foram silenciadas. Reforçamos a importância da interseccionalidade como contribuição para os movimentos e para a construção de políticas que contemplem nossa realidade — com 305 povos e múltiplas culturas, somos diversidade em essência. Nosso olhar amplia os horizontes dos debates internacionais ao incorporar saberes e vivências únicas.

 

Ao lado de outras lideranças, compartilhamos dados e experiências que revelam uma triste realidade: a juventude indígena 2SLGBTQIA+ no Brasil está entre as mais vulneráveis ao suicídio. O silenciamento e a violência institucional colocam esses jovens à margem, muitas vezes sem acesso à educação, saúde ou políticas de cuidado. Precisamos de políticas públicas específicas e de reconhecimento por parte do Estado, mas também de apoio e solidariedade internacional.

 

 

Foto/Divulgação: Danilo Tupinikim.

 

Inspiram-me as trajetórias de parentes que, mesmo diante de ameaças, seguem liderando suas comunidades. A defesa dos nossos corpos é também a defesa dos nossos territórios — porque corpo, terra e espírito são indissociáveis na cosmovisão indígena.

 

O evento reforçou que o fortalecimento da presença indígena 2SLGBTQIA+ na ONU não é apenas necessário, é urgente. É preciso garantir espaços seguros de fala, criar mecanismos de participação direta, escutar as comunidades em sua diversidade. Como Estados-membros e sociedade internacional, é fundamental que reconheçamos a urgência de proteger essas vidas e essas vozes — com recursos, com políticas afirmativas, com presença constante.

 

Seguimos comprometidos com uma luta que é global, mas que se enraíza profundamente em nossos territórios e histórias locais. Uma luta por justiça, reconhecimento e vida plena. E fazemos isso com coragem, com memória ancestral e com a certeza de que nenhum futuro será possível se continuar deixando nossas existências para trás.

 

 

 

Foto/Divulgação: Danilo Tupinikim.

 

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