A Rede Arandu fez presença na 29ª Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo, no dia 22 de junho, que teve como tema “Envelhecer LGBT+: Memória, Resistência e Futuro".

 

Integrantes indígenas e não-indígenas da Arandu ocuparam a avenida Paulista, levantando e apoiando a presença de pessoas indígenas LGBTQIA+ de diversos biomas e regiões do Brasil, fazendo história ao afirmar com seus corpos, falas, vestimentas e adornos: sim, pessoas indígenas LGBTQIA+ existem e resistem. O Brasil é terra indígena, São Paulo é terra indígena!

 

 

Foto: Arquivo Pessoal de Flávia Belmont.

 

A presença significativa de pessoas indígenas se deu, em parte, em decorrência da Etapa Sudeste do Seminário Regional de Consulta Tecendo Direitos: Construindo uma Estratégia Nacional para Indígenas LGBTQIA+, realizado entre 19 e 22 de junho na Nave Coletiva, Sede da Mídia Ninja em São Paulo. O Seminário foi mais um espaço para discussão e construção de propostas regionais a serem levadas para o Seminário Nacional, a ocorrer em agosto deste ano. 

 

Pessoas dos povos Pataxó, Xokleng, Pankará, Kaingang, Potyguara, Boe-Bororo, Guarani Mbya, Guajajara, dentre outros, puderam estar em assembleia, e estender a construção política do Seminário para a celebração nas ruas, em um momento de união e diferença em relação ao público LGBTQIA+ não-indígena.

 

É preciso reconhecer, quando pensamos sobre união e diferença, que sentir-se parte acolhida do movimento LGBTQIA+ é fundamental para a coletividade da luta histórica construída em torno dos diversos tabus e violências sobre corpos dissidentes das normas de gênero e sexualidade. Por outro lado, ser indígena LGBTQIA+, em contextos urbanos ou aldeados, é uma posição política de muitos modos distinta das normas, gramáticas, formas de luta e de entendimento de subjetividades políticas do movimento LGBTQIA+ como um todo (Silva, 2022).

 

Yakecan Potyguara, Niotxarú Pataxó, Samantha Terena e Gualoy Guarani-Kaiowa, lideranças indígenas de seus respectivos povos, afirmam que suas lutas coletivas partem, primeiramente, de sua humanidade enquanto pessoas indígenas, que precisam de acesso a recursos vitais, de demarcação de seus territórios, proteção contra a violência, e garantia de seus direitos humanos básicos.

 

Esse diálogo pode ser acessado em uma das palestras do ciclo Saberes Indígenas, Gênero e Sexualidade em Diálogo, curso de extensão promovido pela Rede Arandu com apoio do INCT Caleidoscópio. Ao longo do curso, as particularidades do movimento indígena LGBTQIA+ em relação ao LGBTQIA+ não-indígenas, assim como particularidades internas ao movimento indígena, estão sendo e serão abordadas. 

 

A partir da premissa de que, antes de tudo, indígenas LGBTQIA+ são pessoas que lutam pelos territórios e necessidades de sobrevivência cultural e material de seus povos, abrem-se caminhos para a politização da luta LGBTQIA+ em outros moldes, inclusive combativos às articulações neoliberais que transformam as representações e fazeres políticos dissidentes a partir da ótica do consumo capitalista.

 

Sintomaticamente, se há fragmentação do tecido social e dos corpos em assembleia que lutam contra a precariedade decorrente das formas de opressão, a tendência é que o movimento LGBTQIA+ também se torne mais individualista e pautado pela capacidade de consumo (Belmont, 2019).

 

Essa crítica não silencia, contudo, a alegria, a festividade e o humor como formas de fazer política. As festas, shows e reuniões, especialmente gratuitas e nas ruas, são parte central do aprendizado, da disseminação de informações e ideias; e da reunião e liberdade de corpos que foram e são historicamente silenciados e violentados, proibidos ou restringidos de aparecer em público, especialmente pessoas trans e travestis. A parada LGBTQIA+ é composta não apenas de corpos em assembleia (Butler, 2018), mas de diversas assembleias de corpos que levantam suas bandeiras e se fazem visíveis no espaço público.

 

Retomamos, porém, a ideia de que a política indígena LGBTQIA+ passa por questões intrinsecamente coletivas, que reconhecem a relação também intrínseca e horizontal entre a humanidade e a natureza. Como Samantha Terena exclamou em alto e bom som no trio "Memória e resistência”: 

 

Se LGBT indígena existe, muito prazer, porque nós existimos. E nós estamos aqui também para lutar contra a PL da Devastação e pedir por demarcação de nossos territórios. Só assim nós teremos a paz e a plenitude em nossos territórios. (...) E dizer que nós também estamos na luta por justiça climática, e não há outro meio para salvar nosso planeta, a não ser nós, povos indígenas, que pagamos com nossa própria vida.”, diz.

 

 

Foto: Arquivo Pessoal de Flávia Belmont.

 

O atrelamento entre a reafirmação da existência de indígenas LGBTQIA+ e a reiteração da necessidade de demarcação territorial é central. Samantha afirma, também, que os povos indígenas são fundamentais para decidir o destino do planeta, porque pagam com sua própria vida, sentindo mais intensamente as consequências da devastação ambiental.

 

Neste momento histórico crucial, o movimento indígena LGBTQIA+ vem ganhando forças para ocupar cada vez mais espaços, demonstrando, com suas lutas e saberes, que há diversas formas de existir no mundo: não apenas lutando pela liberdade de expressar seus afetos, gêneros e sexualidades, mas pelo reconhecimento político de outras formas de enxergar o mundo, de existir culturalmente, materialmente e espiritualmente, que passa fundamentalmente pela garantia de demarcação de territórios, acesso a recursos naturais, assistência social e pelo bem-viver livre de violência.

 

Referências:

 

BELMONT, Flávia. Por que o queer? analisando o disciplinamento das identidades LGBT como manutenção do status quo. Dissertação de Mestrado. Instituto de Relações Internacionais da Puc-Rio.  Rio de Janeiro, 2019. 137 f.

BUTLER, Judith. Corpos em aliança e a política das ruas: notas para uma teoria performativa da assembleia. Tradução de André Lepecki. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018.

SILVA, Washington Ferreira da. Falas, subjetividades e costuras de histórias: o caso dos parentes (indígenas) "LGBTQIAP+. Dissertação de Mestrado. Instituto Latino-Americano de Arte, Cultura e História da UNILA. Foz do Iguaçu, 2022. 113 f.

 

 

Autoria: Flávia Belmont.