Foto: Divulgação Rede Arandu.
A participação da Rede Arandu na conferência internacional ENABRI25 – Desenvolvimento e Diplomacia no Sul Global, realizada entre os dias 21 e 24 de julho de 2025 no Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (IRI/USP), representou um marco na afirmação de metodologias colaborativas, éticas e interseccionais de pesquisa junto a povos indígenas, com ênfase nas experiências e mobilizações de pessoas indígenas LGBTQIAPN+.
A presença da Arandu na conferência se deu por meio de uma mesa-redonda, três painéis temáticos e um minicurso nos quais integrantes da Rede compartilharam resultados de pesquisa, reflexões teóricas e propostas políticas, em diálogo direto com os desafios contemporâneos da governança global e do desenvolvimento sustentável desde o Sul Global.
A mesa-redonda intitulada “De territórios e globalidades: A Rede Colaborativa de Pesquisa Povos Indígenas, Gênero e Sexualidades” reuniu pesquisadoras e pesquisadores da Arandu para apresentar a trajetória da Rede, desde sua criação em diálogo com o Ministério dos Povos Indígenas até os desdobramentos atuais em diferentes frentes de atuação. A abertura do encontro resgatou o percurso coletivo e os princípios que sustentam a Rede, como a construção de metodologias ético-políticas de pesquisa fundamentadas na escuta, no acompanhamento e na coautoria com povos indígenas, em especial com o movimento indígena LGBTQIAPN+.
Ao longo da roda, foram compartilhadas experiências de articulação entre pesquisa, incidência em políticas públicas e práticas de cuidado, como o mapeamento bibliográfico, o desenvolvimento do protocolo ético, o projeto Tecendo Direitos e o programa Bem Viver Mais. Também se refletiu sobre as contribuições epistemológicas da Arandu para o campo das Relações Internacionais, enfatizando a necessidade de ocupar esse espaço com corpos, vozes e saberes insurgentes.
A apresentação foi concluída com uma mostra visual das ações da Rede, reafirmando seu caráter colaborativo, transdisciplinar e comprometido com a transformação social e epistêmica. O compartilhamento das experiências e reflexões ao longo da mesa foi fundamental para reforçar a necessidade de continuar a repensar as Relações Internacionais e a presença e protagonismo dos povos indígenas, além que a descolonização do pensamento não deve ser vista apenas enquanto escolha teórica, mas como postura ética, política e existencial.
Nos painéis temáticos, a Rede aprofundou o debate sobre a presença e a resistência de pessoas indígenas LGBTQIAPN+ nos espaços políticos e acadêmicos. Em “Ser dissidente no cu do mundo: Insubordinações de gênero no Brasil, fracassos das Relações Internacionais”, Tchella Maso (UnB) e Xaman Korai Minillo (UFPB) apresentaram a comunicação “Cúir do Queer: o movimento indígena LGBTQIAPN+ no Brasil”, propondo uma reflexão crítica sobre os limites disciplinares das Relações Internacionais diante das experiências de dissidência de gênero e sexualidade em contextos indígenas. Sebastian Henao, a partir da escuta junto ao JUIND, apresentou as experiências do território Guarani e Kaiowá na comunicação “JUIND e Bem Viver+: Relato de acompanhamento das ações do programa junto ao coleƟvo da Juventude Indígena da Diversidade Guarani e Kaiowá”.
No painel “Corpo-território e resistência: Gênero, interseccionalidade e lutas no Sul Global”, a apresentação de Yara Martinelli (UnB), Líndice Tavares (UFPB) e Flávia Belmont (PUC-Rio) discutiram os resultados preliminares de um mapeamento internacional das políticas públicas voltadas às populações Indígenas LGBTQIAPN+. A comunicação “Interseccionalidade, Políticas Públicas e Populações Indígenas LGBTQIAPN+: um mapeamento crítico de desaĮos e possibilidades de governança” abordou os desafios institucionais, os silêncios normativos e as potencialidades de construção de estratégias interseccionais de governança que incorporem as demandas desses coletivos de forma transversal e participativa.
Já no painel “Caminhos coletivos para saberes entrelaçados” apresentou o processo de construção coletiva dos fundamentos éticos e metodológicos da atuação da Rede. Giorgio Cristofani (Fiocruz) e Xaman Minillo aprofundaram reflexões críticas sobre o papel do acompanhamento e da devolutiva como prática epistemológica e política. Com base nas experiências acumuladas pela Arandu, argumentaram que a produção de conhecimento junto a povos indígenas LGBTQIAPN+ requer o abandono de métodos extrativistas e a adoção de posturas baseadas na reciprocidade, no cuidado e na co-autoria. Refletiram, também, sobre o papel dos espaços acadêmicos na luta pela justiça social e epistêmica.
Por fim, o minicurso “Metodologias Queer” foi ministrado por Amanda Ferreira (PUC Rio), membro da Rede Arandu, e Rica Prata (PUC Rio). Abordando teorias queer de maneira interdisciplinar, o minicurso objetivou ressaltar os vieses políticos no debate epistemológico e metodológico da disciplina de Relações Internacionais e apresentar aos diversos pesquisadoras e pesquisadores na audiência instrumentos para uma pesquisa crítica, ética e posicionada.
Alguns pontos debatidos foram: o apagamento dos processos de colonização, bem como da construção histórico-política do gênero, na disciplina de Relações Internacionais; a busca por métodos que utilizem objetos não-convencionais e que observem o político no que é tomado como natural; a relevância da radicalidade e do engajamento político na pesquisa queer; a reflexão sobre a posição do cientista na condução da pesquisa.
A participação da Arandu no ENABRI25 reafirmou a centralidade das epistemologias indígenas na produção de alternativas à política global dominante. Ao trazer para o centro do debate os corpos-territórios silenciados pelas lógicas coloniais e heteronormativas da academia e da diplomacia internacional, a Rede contribuiu para reconfigurar os horizontes da justiça climática, da soberania epistêmica e da própria noção de desenvolvimento. Em aliança com o movimento Indígena LGBTQIAPN+, a Arandu segue entrelaçando saberes e fortalecendo práticas políticas que visam à transformação das estruturas da ordem global a partir dos territórios e das margens.
Foto: Divulgação Rede Arandu.
Autoria: Amanda Ferreira, Tchella Maso, Xaman Korai Minillo, Yara Martinelli e Matheus Silveira.